O regresso de Jesus à terra é considerado pelo apóstolo
Paulo a “bendita esperança” dos cristãos. Numa época em que o pessimismo e o
juízo apocalíptico caracterizam a perspectiva dos cientistas numa extensão
quase tão grande como a dos teólogos, ousamos afirmar diretamente, baseados na
autoridade da Palavra de Deus, que aguardamos novos céus e nova terra enquanto
esperamos pelo Senhor da Glória. A doutrina da segunda vinda não tem sentido
se, pelo que nos diz respeito, não nos fizer compreender que em qualquer
momento do ano se pode aplicar devidamente à nossa vida a pergunta de Donne:
“Que seria, se fosse esta a última noite do mundo?”. Por vezes, incomoda-nos
essa ideia, acompanhada de profundo terror, o qual é incutido em nós por
aqueles que nem sempre se aproveitam devidamente dela. Não é justo, creio eu,
pois estou longe de aceitar que se pense no temor religioso como algo desumano
e degradante, a ponto de se optar por sua exclusão da vida espiritual.
Sabemos que o amor, quando puro, não admite nenhuma espécie
de temor. O mesmo já não sucede com a ignorância, o álcool, as paixões, a
presunção e até a estupidez. Seria bom que todos alcançássemos aquele amor
puro, em que o temor já não existe; mas não convinha que qualquer outro agente
inferior pudesse bani-lo, enquanto não conseguíssemos chegar àquela perfeição.
Quanto a mim, é um caso diferente o argumento que não raro
surge de que a ideia da segunda vinda de Cristo pode provocar um terror
contínuo nas almas. Decerto não é fácil, pois o temor é uma emoção e, como tal,
mesmo fisicamente não pode manter-se por muito tempo. Pela mesma razão, não é
fácil admitir uma ânsia contínua de esperança na segunda vinda. O
sentimento-crise é essencialmente transitório, já que os sentimentos vêm e vão,
e só se pode fazer bom uso deles nesta altura.
De forma alguma poderiam constituir o nosso alimento de
todos os dias na vida espiritual. O que importa não é o terror (ou a esperança)
que possamos ter em relação ao fim; o que é necessário é não esquecê-lo,
tendo-o em devida conta. (…) O que os cristãos de hoje parecem esquecer com
facilidade é que a vida de toda a humanidade neste mundo é também breve,
precária e provisória. Qualquer moralista nos dirá que o triunfo pessoal de um
atleta ou de uma dançarina é certamente provisório, mas o principal é lembrar
que um império ou uma civilização são também transitórios. Sob o aspecto
meramente mundano, todos os empreendimentos e triunfos nada significarão quando
chegar o fim.
De parabéns, os cientistas e os teólogos: a terra não será sempre
habitada. E o homem, por mais que viva, não deixa de ser mortal. Há apenas uma
diferença: enquanto os cientistas esperam uma desagregação lenta, vinda do
interior, nós a temos como uma interrupção rápida vinda do exterior, a qualquer
momento. Será então a “última noite deste mundo”.
CS Lewis


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