“Que o Senhor conduza o coração de vocês ao amor de Deus e à
perseverança que vem de Cristo” (2Ts 3.5).
Se você conhecesse bem de perto uma igreja recém-formada que
passasse por inúmeras perseguições numa cidade em franco declínio moral, como
oraria por ela? De pronto, posso imaginar que a resposta mais comum a essa
pergunta seria a seguinte: “Eu oraria para que Deus desse forças e paciência à
tal igreja, rogando também que bem depressa as perseguições acabassem e o
evangelho obtivesse pleno triunfo naquele lugar”.
Naturalmente, todos diríamos “amém” ao fim dessa oração e
isso seria absolutamente correto. Com efeito, Paulo, conhecendo muito bem a
jovem igreja de Tessalônica e estando ciente dos ataques que ela sofria, fez
súplicas a seu favor que se harmonizam substancialmente com as que faríamos,
caso víssemos irmãos nossos sendo perseguidos por causa da fé (veja-se 3.16,
por exemplo).
Mesmo assim, é ainda possível aprender com as súplicas
proferidas por Paulo em situações desse tipo. O desejo/súplica transcrito acima
mostra isso. Nesse texto, Paulo faz dois pedidos a Deus em favor da sofrida
igreja a que escreve. É muito instrutivo observar esses pedidos e, quem sabe,
repeti-los em nossas orações em prol daqueles que sofrem pelo nome de Cristo.
O primeiro desejo/súplica de Paulo é que o Senhor conduza o
coração dos crentes ao amor de Deus. Conduzir o coração significa guiar o
entendimento das pessoas, pois o termo “coração”, nessa passagem, tem o sentido
comum de “mente”, não podendo ser associado apenas a sentimentos e emoções. O
que se depreende disso é que os crentes devem ter uma compreensão intelectual guiada
pelo Senhor a certas direções. Sua mente deve tomar determinados rumos, seguir
algumas rotas enquanto Cristo a dirige. O mundo ou as circunstâncias não devem
tomar o leme do nosso barco mental ditando nossos pensamentos e,
consequentemente, nossas formas de agir. Temos um capitão e pertence só a ele o
direito de apontar a direção que nossa forma de pensar deve seguir.
Como se vê no texto, um dos rumos a que Cristo deve dirigir
a mente dos crentes perseguidos é o “amor de Deus”. Essa expressão pode se
referir ao amor por Deus ou ao amor que Deus tem (no caso, pelos homens). As
duas opções são aceitáveis, mas a segunda parece melhor à luz do texto e do seu
contexto. De fato, uma igreja sofrida como a de Tessalônica podia deixar de
compreender o grande amor que Deus tinha pelas pessoas e, sob os golpes dos
inimigos, desanimar, acreditando que o Senhor, na verdade, não a amava. Isso
seria uma forma absurda de pensar durante as provas e Paulo sabia que a ajuda
de Deus era necessária para que seus leitores tivessem um entendimento correto
da maneira como o amor de Deus por seu povo se manifesta até mesmo (e
principalmente!) durante os tempos difíceis.
Além disso, a igreja que sofre e que, ao longo desse duro
processo, não entende com clareza o amor que Deus tem pelos homens tende a se
tornar rude e amarga no trato com os incrédulos e até de uns com os outros.
Pode se embrutecer e criar uma casca grossa em torno do coração, deixando de
lado a docilidade, a compaixão e a brandura próprias do amor. Na verdade, isso
aconteceu mais tarde com a cansada igreja de Éfeso que, em meio a tantas lutas,
abandonou o seu primeiro amor e foi, por isso, repreendida pelo Senhor (Ap
2.2-4).
Paulo estava ciente desse perigo. Daí suplicava que o Senhor
direcionasse os tessalonicenses a um entendimento maior do imenso amor de Deus
por eles e pelos perdidos, esperando que os picos dessa compreensão se
elevassem tanto que a neblina das perseguições não fosse capaz de cobri-los,
fazendo-os desaparecer.
A seguir, Paulo expressa um outro desejo/súplica. Trata-se
de mais uma direção a que ele almeja que o Senhor dirija o entendimento dos
crentes perseguidos. Ele esperava que a mente dos tessalonicenses assimilasse
melhor e com mais clareza tudo que envolve a perseverança “que vem de Cristo”.
A expressão exata no texto grego é “perseverança de Cristo” e pode se referir à
espera paciente do crente pela vinda do Senhor, à firmeza que Cristo dá aos
crentes ou à firmeza que Cristo demonstrou diante do mal. Considerando que o
“amor de Deus” analisado anteriormente parece se referir ao amor que Deus
demonstra aos homens, talvez seja mais apropriado entender a “perseverança de
Cristo” também como a firmeza que Jesus demonstrou aos homens durante o tempo
de sua humilhação. Se for esse o caso, Paulo ora para que os crentes entendam a
dimensão dessa firmeza, lembrem-se de suas manifestações enquanto o Senhor
esteve aqui e programem seus intelectos para imitá-la haja o que houver.
Que belos anseios Paulo nutria em relação aos crentes
ameaçados de Tessalônica! Ele queria sim vê-los desfrutando de paz e
tranquilidade. Contudo, sabia que, enquanto essas bênçãos não chegassem, tudo
de que eles precisavam era uma mente dirigida pelo Senhor, de tal forma
que jamais se esquecessem da grandeza do
amor de Deus e do exemplo de Cristo.
Que tal orarmos como o apóstolo Paulo? Vamos pedir que essas
mesmas coisas sejam dadas a nós que enfrentamos constantemente os rancores dos
maus. Vamos pedir essas mesmas coisas em favor dos nossos irmãos ao redor do
mundo que, por causa da fé, derramam sangue, suor e lágrimas todos os dias,
todas as horas.
Pr. Marcos Granconato


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